Jana Rosa

fura olho do bem

Um dia notei a presença de um menino ruivo de cabelo comprido, alto e magrelo no recreio. Era 97 mas não vou mentir que sabia o que era grunge, eram os Hanson que faziam minha cabeça e me deixaram encantada por aquele cabeludo que tocava bateria no sarau da escola.

Como canceriana, boba ou apenas uma garota de 12 anos mesmo, comuniquei todas as minhas amigas que estava perdidamente apaixonada por Luis André. No dia seguinte, todas elas também estavam.

Viramos da noite para o dia amigas inimigas, focadas no mesmo propósito, que era o primeiro beijo, ficamos obcecadas pela idéia, enquanto tentávamos nos destacar na fila da cantina, esperando para comprar um enroladinho de salsicha. Quem seria a escolhida do Luis André?

Antes da palavra stalker existir, talvez no mundo, com certeza em Araraquara (e da internet em uma casa e do celular, do instagram, buzzfeed, do twitter, de tudo que conhecemos hoje como vida) viramos maníacas perseguidoras do Luis André. Descobrimos o telefone da casa dele, o endereço, nome do irmão (Paulo) nome da mãe (desculpa, esqueci), altura, peso, signo (seria áries?) e quanto tirou em matemática no terceiro semestre. Começamos a nos infiltrar por toda a escola, cada amizade era muito estratégica e que vencesse a melhor, o prêmio seria o ruivo tímido de 13 anos que andava olhando para o chão sem olhar para os lados. Ficamos amigas dos amigos dos amigos, das amigas dos amigos, das amigas das amigas, dos amigos das amigas, dos amigos, das amigas e um dia finalmente ficamos amigas dele, aconteceu.

Não precisávamos mais passar trote na casa do Luis André e desligar na cara ou
jogar bombom sonho de valsa na varanda e sair correndo (pode nos agradecer por essa hein, cara) ele agora falava com a gente no recreio e sabia nosso nome.

Eu e Luis André ficamos muito amigos, digo isso porque a gente se falava na saída direto e ele fazia piada das fotos que eu colava para decorar o meu fichário. Numa dessas saídas, não imagino como, peguei um fio de cabelo ruivo dele e colei na agenda.

Uma tarde o Luis André ligou na minha casa e falou: preciso falar muito sério com você, Jana.

Tremi, senti o corpo amolecer, tontura, frio, calor, pernas bambas. Achei que ele ia se declarar e eu ia perder o BV, a gente ia namorar e casar (áries é meu ascendente e adoraria ter um filho ruivo naquela época em que pensava em filhos mesmo sem ter nunca menstruado).

- Jana, tô apaixonado pela Camilinha, acontece que sou BV e ela também, o que eu faço?

Eu estava no telefone de fio, sentada no chão da sala enquanto o vô João gritava para eu desligar porque podiam ligar da Caixa Econômica para falar sobre a poupança, quando recebi essa bomba. Sabe lá de onde, do fundo do meu coração de BV, dei uma dica amorosa pro Luis André. Não lembro qual foi.

Acho que ele e a Camilinha perderam o BV juntos atrás da quadra da escola Coeducar.

O que eu vi nele, ela viu também. O que ele viu nela, não viu em mim. Além disso ela já tinha peitos.

Eu e a Camilinha continuamos amigas, mas melhores amigas nunca mais, depois brigamos por algum motivo, acho que foi a Maria Luiza, que era minha nova melhor amiga mas escolheu ser a melhor amiga dela.

Não sei onde nenhum dos dois está hoje ou o que fazem, mas outro dia lembrei dessa história num táxi voltando do bar, lembrei de tudo, até do brinquinho de argola do Luis André.

ficar em hostel e gostar disso + uma coisa muito legal

Acho que já contei aqui em algum post, mas eu tinha horror a hostel quando fiz meu primeiro “mochilão”, que não envolvia um mochilão e sim duas malas enormes de 30kg cada em um mês de Europa, eu era patricinha destruidora mesmo, viadu! Me hospedava em hotéis, se alguém tentasse me convencer a ficar em hostel, eu soltava logo um “credo, eu não sou pessoa que fica em hostel”.

Minha primeira vez em um hostel foi sem querer, minha amiga Thab ficou encarregada de bookar nossa estadia em Londres e eu, crente que ficaria num hotel de princesa, cheguei em um quarto com 12 meninas e banheirão compartilhado. Fiquei chocada, horrorizada, até sai de lá e fui pra um hotel de rica torrar meu dinheiro sem dó.

Algum tempo depois, em busca de economia (pra viajar mais e mais) comecei a ficar em hostels, mas então percebi que tinha outra questão mais importante que a economia, comecei a amar ficar em hostels, hoje em dia quando fico em um hotel fico super deprê, mesmo quando o hotel é rico. Virei pessoa que fica em hostel!

Mas pra esse relaciô acontecer, tive que fazer do jeito certo, ainda estou aprendendo na verdade, mas basicamente funciona assim:

- Claro que odiei minha primeira vez num hostel em um quarto com 12 meninas, quarto compartilhado não é fácil. Se eu ficava em quarto só meu de patricinha, podia ter sido um quarto compartilhado com 4 meninas pra começar (mas é que naquela viagem não tinha quarto disponível porque decidimos em cima da hora, etc etc).

Hostels geralmente têm todo tipo de quarto: compartilhado com pouca gente, muita gente, só meninas, só meninos e misto. Também tem geralmente quarto pra uma ou duas pessoas com banheiro próprio ou banheiro compartilhado, a escolha depende muito da disponibilidade da data e sua vontade de ficar naquele hostel, do preço também. Se é um lugar onde sou rica e meu dinheiro vale alguma coisa, fico em quarto sozinha e espalho minhas coisas nele inteiro bem mimada, se é um lugar onde sou pobre e meu dinheiro não vale nada, fico no compartilhado. Meu ideal hoje em dia são 4 pessoas no quarto no máximo, os tempos de 10 ou 12 criaturas já passaram, mas tudo pode mudar. Na maioria das vezes fico em quarto de mulheres, mas quarto misto também gosto, já vou falar mais disso.

- Hoje em dia sou pró em escolher hostel de acordo com minhas necessidades, que são: localização ótima, limpeza ótima acima de 85% por favor (depois que peguei micose no pé em um hostel sujo da Rússia, fiquei séria com essa exigência, desculpa sempre conto essa história mas ela é mara), segurança e o que dizem os reviews. Sempre leio as primeiras páginas de Reviews, que são sempre muito reveladoras, porque você pode descobrir nelas muito rápido se a staff do seu hostel é legal ou cheia de gente uó, se é fácil de fazer amigos e conhecer pessoas, se a internet funciona ou se é uma merda, se tem algum problema bizarro tipo ataque de baratas ou fede ou chuveiros ruins (já li todo tipo de coisa em reviews), se o café da manhã é maravilhoso, se é barulhento, se é calmo, infos infinitas. Eu sempre procuro hostel pelo Hostelworld e procuro pelas notas, se estou rica seleciono tipos de quarto sozinha, se estou garota seleciono só para garotas, se estou bróder dos bróder seleciono quarto misto, ou vou pela sorte.

Dependendo do lugar, onde sou pobre por exemplo, procuro pelo preço, que é a maior diferença entre o hotel, hostel sempre é muito mais barato que hotel ou Airbnb, não tem comparação.

- Se você viaja sozinha(o), sua chance de conhecer pessoas aumenta muito ficando em hostels. Essa é outra diferença do hotel, hotel é meio pra ir em família, em casal ou numa turma já fechada, porque sozinha você pode morrer de tédio. O hostel tem essa cultura de conhecer pessoas que no começo eu não entendia direito como funcionava ou ficava tímida, hoje em dia já entendo melhor. Por exemplo, quarto compartilhado é ótimo porque você é obrigada a conhecer aquelas pessoas que dormem ao seu lado e falar com elas, quarto misto acho mais sociável ainda.

Geralmente hostels tem áreas comuns pro café da manhã, jantar, bar, pub ou até pista de dança, que são lugares onde você pode levar seu computador e trabalhar (no momento estou fazendo isso) ou pode comprar uma cerveja e em alguns minutos fazer amigos. Os party hostels, que são esses com bar/balada podem assustar no começo, você pode achar muita bagunça, barulho, loucura, mas depois que você aprende a conviver com eles percebe que são ótimas fontes de amigos de um dia, três dias ou amigos que você reencontra depois, viajando também você percebe que amigos de três dias muitas vezes são tão ótimos quanto amigos de anos que você tem em casa, ou até mais compreensivos e interessados, um alívio muitas vezes.

Já fiz amigos em hostel que ficaram amigos de verdade depois. Também já fiquei em muitos hostels que não fiz nenhum amigo e não falei com ninguém, simplesmente porque não queria e não sou obrigada.

- Mas atenção, porque um hostel pode te sugar e você nunca mais sair dele, principalmente esses com bares e festas, porque você fica o tempo todo em festinha de hostel e esquece de conhecer a cidade ou festas locais ou pessoas locais. Sem problemas também, ás vezes eu estou afim de conhecer locais e ás vezes tô afim de ficar no bar do hostel porque tá legal. No Loki, um hostel famoso de La Paz na Bolívia, eu fui sugada e quase nunca saí, conheci pessoas malucas, legais, engraçadas (algumas ainda falo) saí com elas pra festas malucas/legais/perigosas e no final juro que partiu meu coração ir embora, fiquei pensando que queria morar no Loki!

Tem gente que se hospeda em hostel e fica lá o dia inteiro, conhece mais o hostel que a cidade, tem gente que acorda super cedo e passa o dia inteiro fora e dorme cedo pra aproveitar o dia, tem gente que sai toda noite e fica de ressaca, tem todo tipo de gente, eu acho que já fui todos, depende do humor, da saúde e o que a vida manda, mas cada um que faça o que quiser da sua vida. Sempre!

- Outra forma de conhecer as pessoas e uma facilidade de hostels são os passeios organizados por eles, tipo walking tour pela cidade com um guia, que pode ser de dia ou de noite, envolvendo shots e pubs e bares micão de turista que geralmente esses passeios de hostel levam, mas posso falar, isso também pode ser muito engraçado. Eu geralmente não faço os passeios, algumas vezes tem uns de bicicleta ou que vão para uma cidade próxima, eu sempre faço minha programação sozinha, mas observo que é uma maneira ótima de socializar.

- Ah, a localização dos hostels mais famosos geralmente é central e perto dos picos turísticos e não das coisas mais chiques, cools, da moda da cidade, no começo eu ficava incomodada com isso, mas agora acho ótimo também. Mas se você quer ficar nos bairros mais da moda, tem que procurar pelo bairro quando for encontrar o hostel.

- Nada é perfeito, geralmente a internet é ruim porque tem muita gente usando, por exemplo, mas já me acostumei viajando a nunca contar com internet nesse mundo, não importa o país, a cidade, sempre vai ter treta de internet no hostel, no café, no Mc Donald’s, no hotel ou no seu Airbnb (em casa também, porque se chover cai a Net), aguardo o dia de um mundo com sinal melhor, grata!

Ás vezes você cai na parte de cima do beliche, porque muitos quartos de hostel tem beliche, isso pra mim é a morte, mas tento rir da situação e rezo pra pessoa de baixo ir embora no dia seguinte pra eu descer (sempre dá certo minha reza). Ás vezes não tem ninguém legal no seu quarto ou no seu hostel ou uma pessoa que dorme do seu lado fede ou destrói o banheiro depois do banho deixando destroços pra você. Como tudo na vida, pode ser legal, pode ser uma aventura, pode ser um pesadelo. Mas geralmente, provavelmente, legal, pelo menos comigo.

- O melhor é que as pessoas que trabalham em hostels muitas vezes também são viajantes que trabalham lá para morar neles e morar a cada X meses em um novo país, muitos hostels oferecem esse tipo de emprego pra viajantes e também oferecem estadias em troca de serviços tipo: você fotografa bem, faz fotos pra eles, você é designer, ilustrador(a), faz o site deles, mapas, flyers, desenha na parede, você é jornalista, blogueiro(a), escreve sobre eles, muitas possibilidades.

Em Roma eu percebi que o The Yellow, um party hostel muito legal que fiquei, tinha esse anúncio e comecei a pensar em oferecer meus serviços em troca de continuar viajando, uma vez que estou na Europa com o euro a quase 4 reais e o desespero começou a bater, porque ainda quero ir pra Ásia ficar um tempo, pra Austrália, pra África, socorro!

Mas aí uma coisa muito legal aconteceu, o Hostelworld, que eu SEMPRE falo aqui em todos os posts que uso (e é por onde acho hostel mesmo desde sempre) me escreveu em pessoa dizendo “Quer conhecer alguns hostels e escrever sobre eles?” e eu fiquei louca, claro que quero! Essa pessoa é uma brasileira, que cuida agora do Hostelworld BR e fala em português no Twitter deles com os bródinho, e que me convidou para ir para algumas cidades nos próximos dias (comecei por Copenhagen, de onde escrevo e conto no próximo post).

Deixo vocês com essa imagem que encontrei no meu celular, uma festa de aniversário de uma grega de 18 anos na frente do Coliseu que fui parar depois que o brow do hostel me deu open bar de graça porque me achou legal. WTF vida? Valeu Falowww.

grega

o mito das duas malas

Tá na moda não ligar tanto pra roupa, observando eu acredito que sim. Mas também vivemos alguns anos, pelo menos no Brasil, onde a moda era ser it girl, fazer look do dia e ter muita roupa nova, roupa nova todo dia, cara, mimos, sapatos de salto, bolsas, muitas bolsas e closet. Pensa em 2011, 2012 uma pessoa sendo admirada por milhares só porque ela tinha um closet e pensa agora, em 2015, como ficou cafona alguém falar que tem um closet enorme em casa, que compra um monte. O mundo mudou, o Brasil mudou e o nosso dinheiro vale outra coisa agora, em tão pouco tempo.

Tá na moda se desfazer de tudo que você passou anos comprando com o dinheiro que trabalhou e ganhou. Vestidos, camisas, saias, sandálias, botas, clutch e bolsa de marca e bijuteria e joias fashion não tão caras mas ainda assim caras. E tranqueira, muita tranqueira que compramos. Todo mundo encheu o apartamento de roupa e tralha que não cabia mais e que nem ia usar mesmo, aí ficou legal ter espaço no apartamento e não sair mais comprando tudo igual uma louca e todo mundo começou a repensar esse vício em compras e necessidade de acumular tudo. Ok, posso estar generalizando, mas muita gente repensou sua forma de consumir, as marcas de tecido vintage e sustentáveis começaram a fazer sucesso, ter poucas coisas boas que duram bastante e que sejam mais básicas virou coisa de gente esperta. Pelo menos por onde eu ando tem sido assim.

Aqui em Berlin, cada um se veste como bem entender, é claro, mas percebo que existe tendência, claro. Ano passado por exemplo, eu me achava com minha jaquetinha militar que ganhei da Topshop em 2013 e que todo mundo usava. Esse ano pra onde olho tá todo mundo de camiseta branca ou preta básica, calça preta, tênis e só. Quanto mais básico, mais simples, mais uniforme de todo dia, melhor.

Coincidentemente todas as minhas roupas são básicas brancas e pretas nos últimos tempos, o que me faz questionar se comecei a ser influenciada no ano passado quando estava aqui ou se viver só com uma mala me fez realmente precisar ser simples e básica pra não carregar peso e jamais ter que lavar uma roupa a mão ou mandar na lavanderia. Sou uma fashionista ou tive a sorte de ser uma pessoa que precisa de praticidade e conforto e cruzei com essa moda na hora certa e no local certo?

Todo mundo ama dizer que quer chegar no ideal de ter só duas malas de roupa, muito tem a ver como esse momento de se desfazer de tudo que acumulamos e não parecer a cafona do closet. Mas ter só duas malas de roupa realmente é uma liberdade enorme, pouca coisa pra cuidar, pouca coisa pra guardar, também pouca coisa pra perder, é uma vida super fácil de recomeçar também, quanto menos você tiver menos vai precisar ter.

Eu cheguei no ideia das duas malas, que todo mundo sonha, uma mala tem 23 kg e a outra tem 40kg, são duas malas mas tem muito peso nelas, já aviso que não foi fácil. Pra chegar nas duas malas você tem que repensar suas roupas dezenas de vezes, tem que doar e vender e doar e vender e aproveitar que uma amiga vai na sua casa e gosta de algo e falar “leva pra você” e doar pra prima e pra vizinha e pra moça que trabalha com sua vó e pro centro espírita e vender. Nunca acaba.

Olhe pro seu guarda-roupa que você talvez até ache que não tem nada pra usar e imagine enfiar tudo em uma mala: impossível, você tem muita tralha, é sério! Eu por exemplo tinha um guarda-roupa no meu quarto e um segundo quarto closet, que me faz morrer de rir só de lembrar, afinal porque precisei de um quarto closet? Ah sim, na época não era tão cafona.

No começo eu só doava porque morria de medo de vender e do que iam pensar de eu estar vendendo minhas coisas, iam pensar que eu estava na pior? Que eu precisava de dinheiro? Nossa…

Aí a Ana me convenceu a fazer uma primeira loja no Enjoei, porque eu já trabalhava com eles direto e ok, fiz uma mini loja. Aí caiu a grana na minha conta e eu pensei “quer saber? vou vender mais coisas, eu quero dinheiro mesmo!”.

Gente, agora uma pausa aqui pra falarmos a real, todo mundo quer dinheiro! A Oprah quer dinheiro, a Beyoncé quer dinheiro, o Luciano Huck quer dinheiro, eu quero dinheiro, você quer dinheiro, quem não quer dinheiro tá de parabéns, eu quero sim, quero pagar minhas contas e viajar e comprar comida saudável orgânica e me sentir maravilhosa no treino funcional que custa dinheiro.

Então passei desse primeiro drama que é “nossa, ela tá vendendo as coisas dela, deve estar na pior”. Rélhowww, a pessoa que vende as coisas dela tá na pior? Tá na melhor? Não importa! Ela quer ganhar um dinheiro com aquelas coisas que não usa mais, ou que ainda usa, mas agora ela prefere dinheiro, algum problema nisso?

Me aceitei e em seguida entrei em uma nova fase, depois da minha fase mais sanguinária de querer fazer dinheiro de tudo que eu tinha, a de achar tudo completamente inútil. Mas essa veio de herança de meses com a mesma mala de 23 kg e nem assim usando ela inteira, quando cheguei em SP e vi malas que eu deixei escondidas com roupas que eu achava maravilhosas e que “com certeza ia usar” percebi que não queria nada daquilo, não usaria nada daquilo e algumas já nem achava mais maravilhosas assim.

Entrei então no momento “não quero nunca mais ter nada, nada que pese, nada que me dê trabalho, nadaaaa”. O que é um pouco difícil também, porque como já disse, nós temos MUITO e é infinito o número de coisas que temos dentro da nossa casa, se você já mudou alguma vez e colocou tudo em caixas se ligou sobre como somos doentes e acumuladores mesmo quando achamos que não somos.

Mas mesmo assim, fiz mais algumas vezes de vende, doa, vende, doa, vende, doa, obriga uma amiga a aceitar uma roupa, uma maquiagem, um produto de beleza, uma tralha, um quadro, um livro, um dvd, ufa, quase cheguei lá.

Tenho oficialmente duas malas, o sonho de muitas pessoas. 70% do que tem nelas não uso e talvez não vá usar, estou analisando. Lado bom, tenho poucas coisas, lado ruim, não é tão fácil me virar em momentos específicos como uma festa chique ou um casamento ou um trabalho que precise ir arrumada, mas por outro lado acho que resolvi indo sempre com a mesma roupa em todos e todo mundo já entendeu que é isso aí. Minha mãe já me pediu muitas vezes para eu comprar umas roupinhas, porque não aguenta mais as minhas. E claro que até hoje umas pessoas me dão umas roupas e uns sapatos, o que eu acho o máximo porque na maioria das vezes super uso e quando me mandam uma roupa 36 tamanho Kendall Jenner zuando com a minha cara, eu vendo sem dó na minha loja do Enjoei, respeitem meu corpo fazendo o favor.

Minha mala para esse tempinho aqui em Berlin tem 23 kg, mas digamos que tranquilamente 10kg é de maquiagem, cremes, shampoos e livros. O resto em roupa. Mas porque isso? Porque eu ainda tenho tanta maquiagem e creme da era it girl, que decidi usar todos os dias tudo pra acabar com tudo (também dei muitas pras amigas e obriguei minha irmã a usar um monte de coisa na cara dela). Mas assim, apesar de ser a pessoa mais cheirosa do mundo atualmente, não usei nem 10% dessas maquiagens e desses pincéis, talvez comece a distribuir por pessoas que vou conhecer em hostels em breve. Livro eu sempre tenho esse sonho de que vou viajar com vários e ler um por dia e depois leio um em 2 meses e fico o resto do tempo de ressaca, tem meus sapatos que são um tênis de corrida, um Vans, um sapatinho de pano tipo espadrille que ganhei e uma Havaiana e tem uma calça jeans, dois shorts, uns vestidos e muitas camisetas, tudo básico, tô super na moda como já deixei aqui muito claro. Isso são 23kg. Parece pouco mas 23kg pode deslocar seu ombro carregando por muitos andares, principalmente se você estiver virada de uma balada.

Outro dia, observando as pessoas nas festas e na rua me deu uma vontade de comprar umas roupas novas e ser misteriosona igual a elas – tudo preto, claro – e aí comprei umas roupinhas, tipo 4 roupas. Entrei em crise porque já não aguento mais metade do que eu trouxe e não vejo a hora de chegar em São Paulo e vender tudo. O bom de não se apegar nunca mais a nenhuma roupa e não querer ter nada é que você não vê a hora de fazer a fila andar e pode ir adaptando seu estilo o tempo todo, entra um sai outro, no fundo é como se tivesse sempre roupa nova, jamais me enjoo de algo que eu tenho porque nada mais dura muito tempo, tipo a moda.

Então caso você queira viver o mito, o sonho de ter duas malas, saiba que é possível sim, mas se desfazer de tudo dá mais trabalho do que comprar tudo. E não é vergonha alguma se desfazer das suas coisas vendendo, pelo contrário, pegue esse dinheiro e vá viver a sua vida correndo. Está na pior quem tem uma casa cheia de coisas acumuladas e roupas que não usa penduradas em cabides organizadinhos demais, pelo menos eu acho.

alyssa, la dark

Conheci um italiano em Nova York que me chamava de Alyssa, la dark, achei que deveriam saber.

Todos os direitos desse nome de Drag Queen agora são meus

missed connection

Um texto que achei no bloco de notas do celular.

Eu não vou mais aguentar e vou te escrever. Você não vai mais aguentar e vai me escrever. Vou escrever dizendo que gosto de você e você vai dizer que também gosta de mim. Vou escrever dizendo que gosto de você e você vai visualizar e não responder. Vou escrever dizendo que gosto de você e você vai me bloquear. Você vai me escrever dizendo que gosta de mim e vou te dizer que também gosto de você. Você vai me escrever dizendo que gosta de mim e vou visualizar e não responder. Você vai me escrever dizendo que gosta de mim e vou te bloquear. Nenhum dos dois vai escrever. Vou te encontrar na rua e vou me declarar, você vai se declarar também. Vou te encontrar na rua e vou me declarar, você vai ficar constrangido e vai embora. Vou te encontrar na rua e você vai se declarar, vou me declarar também. Vou te encontrar na rua e você vai se declarar, vou ficar constrangida e vou embora.Vou te encontrar na rua e não vou falar nada. Vou te encontrar na rua e você não vai falar nada. Vou te encontrar na rua e quando a gente se olhar vai saber que temos que ficar juntos, vamos ficar juntos. Vou te encontrar na rua e quando a gente se olhar vai saber que temos que ficar juntos, mas não vamos ficar juntos. Nunca vou te encontrar na rua. Vamos nos encontrar no futuro, os dois solteiros, vamos ficar juntos. Vamos nos encontrar no futuro, os dois solteiros, mas não vamos ficar juntos. Vamos nos encontrar no futuro, você solteiro, eu namorando, vamos ficar juntos. Vamos nos encontrar no futuro, você solteiro, eu namorando, não vamos ficar juntos. Vamos nos encontrar no futuro, você namorando, eu solteira, vamos ficar juntos. Vamos nos encontrar no futuro, você namorando, eu solteira, não vamos ficar juntos. Vamos nos encontrar no futuro, você namorando, eu namorando, vamos ficar juntos. Vamos nos encontrar no futuro, você namorando, eu namorando, não vamos ficar juntos. Não vamos nos encontrar no futuro. O tempo vai passar e nunca vou parar de pensar em você. O tempo vai passar e você nunca vai parar de pensar em mim. O tempo vai passar e vou parar de pensar em você. O tempo vai passar e você vai parar de pensar em mim. O tempo vai passar e vou te achar meio idiota. O tempo vai passar e você vai me achar meio idiota. Você vai descobrir que é gay. Eu vou descobrir que sou lésbica. Vou te encontrar por coincidência no supermercado, vai ser mágico. Vou te encontrar por coincidência no supermercado, vai ser estranho. Nunca vou te encontrar por coincidência no supermercado. Vou marcar um almoço qualquer dia desses pra te falar a verdade. Você vai marcar um almoço qualquer dia desses pra me falar a verdade. Nunca vamos almoçar juntos. Nem vou lembrar que escrevi esse texto pra você. Você nem vai lembrar que percebeu que escrevi esse texto pra você. Vou fingir que não escrevi esse texto pra você. Você vai fingir que não percebeu que escrevi esse texto pra você. Você nunca vai ler esse texto.

 

Por que quem quer ser feliz vem pra Berlin?

Minha amiga Thab me deu outro dia a melhor definição quando disse “esse cara não é a sua pessoa”. Não rolou porque ele não era a sua pessoa, fulano não é a sua pessoa, mas outras pessoas serão as suas pessoas. Adoro falar “a sua pessoa”.

Berlin é a minha pessoa, versão cidade. Tem até motivo astrológico pra isso, em um mapa astral de cidades, que o astro.com cruza com o meu mapa astral, descobri que é aqui que me sinto mais feliz mesmo.

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Mas parece que Berlin deixa todo mundo mais feliz, porque toda hora lemos a história de alguém que quis ser feliz e largou tudo e mudou pra cá ou veio pra cá passar um tempo. Quem mora aqui faz tempo ou quem nunca veio mas torce o nariz pra Berlin porque todo mundo quer vir pra cá pode espernear, xilicar, mas todo mundo quer vir pra cá mesmo, aceita!

Já li dezenas de textos sobre Berlin ser uma cidade apaixonante (aqui tem um da Nina Lemos que mora aqui, aqui tem um dos Pequenos Monstros que moraram ano passado), imagino que alguém deve se irritar com tantas listas felizes sobre amar um lugar, eu não me irrito. Na verdade toda vez que leio uma lista sobre Berlin ser tão especial me dá saudade e vontade de estar aqui. E agora estou, no meu aniversário de 30 anos, então pensei em fazer a minha lista de Berlin tentando entender porque quem quer ser feliz vem pra cá, com os motivos que me deixam feliz aqui. Alguns são iguais os de todo mundo, alguns são pessoais, usei as palavras amar e adorar e amor e feliz dezenas de vezes escrevendo isso aqui:

Sou feliz em Berlin porque ninguém tá nem aí pro meu cabelo, minha roupa, com quem eu ando, como eu ando, pro que eu faço ou pro que eu não faço. Pra nada mesmo, cada um no seu quadrado. Isso dá uma liberdade e felicidade infinitas e me transformou muito, aprendi aqui a finalmente não me importar com o que tão pensando de mim e fazer tudo o que eu quiser mesmo, vestir também. No ano passado quando fiquei aqui um tempinho, me desliguei tanto de tudo que depois fiquei perambulando por São Paulo meses com as roupas mais confortáveis, largas, absurdonas, meus amigos vivem brincando com meus looks absurdões, mas eu sou feliz demais com eles!
Também não tô nem aí pro que ninguém faz, mas aqui fico feliz em dar uma reparadinha só pra ver como as pessoas são lindas e MARAVILHOSAS, porque estão confortáveis com elas mesmas, deve ser esse o segredo. Ás vezes você olha discretamente e queima por dentro de vontade de se vestir igual e ter aquele cabelo moderno de quem não tá nem aí, cada volta na rua você quer ser mais louca, linda, clubber, punk, mana, tudo ao mesmo tempo. E tem aquela história que todo mundo adora de piercing, tatuagem, cabeça raspada, cabelo colorido, roupas estranhas em pessoas de qualquer idade, homens, mulheres, envelhecer em Berlin não é motivo de vergonha, maldição, acabar a vida, é só normal assim – como deveria ser em todos os lugares. E não é uma cidade de patricinha como as patricinhas que a gente “conhece”, aquelas de Babyliss, scarpin e e vestido de vó, as patricinhas aqui são modernas também e andam por aí de bike, tomam sol no parque, usam roupa da h&m, comparam preço no supermercado, igual a gente. Fico feliz quando é todo mundo gente da gente, mesmo sendo diferente.
Aqui tem muito malucão. E eles podem ser engraçados ou agressivos, na maioria das vezes 100% na deles, mas eles estão na rua, no metrô, em todos os lugares. Acho  que cidades com malucões são mais legais, veja São Francisco por exemplo, cheia de malucões em cada esquina e uma cidade maravilhosa e especial também.
O céu! Todo mundo já falou e todo mundo vai falar, mas o céu de Berlin é lindo, eu amo esse céu.
Quando tô andando na rua e olho pra frente e vejo uma cena que tem os prédios, tudo pichado, as bikes, gente do mundo inteiro, o céu e minha torre “disco ball” pessoal, lembro que estou em Berlin e fico mais feliz ainda.
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O cheiro de Berlin, porque Berlin tem um cheiro de Berlin e eu amo esse cheiro de Berlin, que sinto no metrô e na rua, talvez ele nem seja bom, mas eu gosto porque é o “cheirinho dele” (saudades Xuxa falando do Pelé).
E fico mais feliz quando percebo como é barato viver, passar um tempo, estar aqui. Como tudo aqui é realmente mais simples, ninguém tá nem aí pra ostentar, gastar pouco é legal, algo chocante pra gente que mora em São Paulo e gasta MILHÕES por qualquer coisa. O dinheiro aqui rende muito no supermercado, em restaurantes, em bares, na balada. Eu lembro quando comecei a sair e ficava preocupada porque só tinha 20 euros na bolsa. Aí ás vezes eu saia, bebia, me divertia e voltava com 15 euros na bolsa de metrô as 5 da manhã sem entender como, parecia um milagre. Uma boa comparação é a seguinte, semana passada eu estava na Itália onde só comi em restaurantes bons mas nada chiques e gastei pouco, mas cada refeição com uma bebida e uma água saia entre 15 e 18 euros. Na Espanha imagino que esse valor seria entre 10 e 12, em Paris entre 20 e 25, em Berlin entre 5 e 10.
Andar por aqui é TÃO fácil! Chegar no aeroporto e pegar um ônibus e um metrô pra ir até seu hotel, hostel, apê acontece sem nenhum drama e o transporte público é aquele sonho que chega na cidade inteira, rapidão, na tranquilidade (SP, esperamos muito esse dia chegar). Sendo assim, todo mundo se resolve fácil em metrô, trem, trenzinho de rua, ônibus. Ou melhor, vai todo mundo de bicicleta. TODO MUNDO usa bicicleta, menos eu – que vergonha/vamos resolver isso – eu amo quando as pessoas chegam de bicicleta no bar ou quando já é manhã e elas vão embora da balada de bicicleta depois de dançar a noite inteira, é o ponto alto do amor pra mim.
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Cachorrinhos no metrô, cachorrinhos em todos os lugares, Berlin é uma cidade que ama cachorros e eu amo cachorros, conviver com cachorros só pode deixar as pessoas felizes.
Cerveja!!! Ás vezes eu acho que as pessoas bebem cerveja o dia inteiro, mas deve ser porque no metrô tem gente com uma na mão desde de manhã. Como eu sou uma pessoa da cerveja, uma cidade onde as pessoas amam cerveja é uma cidade que tem meu povo. E no verão todo mundo vai pro biergarten e já estou tremendo pensando que cheguei aqui e ainda não fui em nenhum.
Ao mesmo tempo que as pessoas são muito livres, elas também são “certinhas”, claro que muita gente faz a rebelde e em muitos momentos todo mundo faz algo “errado”, mas eu me sinto bem atravessando a rua quase sempre certinha, pagando o metrô mesmo que não tenha catraca, respeitando fila e a cidade, respeitando leis. Me sinto super rebelde respeitando leis, afinal sou brasileira e desde pequena sempre fui considerada loser por ser certinha, mas sou feliz sendo certinha nerds.
Já vim na neve e peguei -14 graus, mas Berlin no calor me deixa muito feliz! Os parques e o verde na cidade inteira, inteira!, que fica lotada de pessoas se divertindo, bebendo, ocupando a cidade, sentando do lado de fora de restaurantes e bares, usando a rua, piscinas públicas e os lagos. Os dias têm opções infinitas e a maioria delas é de graça, é só usar a cidade. Quem mora em SP e sabe o quanto é uma batalha para usar a cidade, que estamos conseguindo aos poucos, entende o prazer de ser natural ocupar uma cidade inteira.
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A vidaloka, ah a vidaloka! Eu amo sair pra dançar e não vou parar de amar aparentemente e aqui dá pra fazer isso todo dia, talvez toda hora, passar o fim de semana inteiro numa festa, só sair dela segunda. E tem baladas/festas/clubs pra todo tipo de gente e nelas você é livre de novo, ninguém tá nem aí pro que você faz lá e pra quanto tempo você ficou lá ou com quem você ficou lá. Eu amo sair aqui, por mim sairia todos os dias, só não vou porque é muita destruição. E aqui aprendi que sair pra dançar é sair pra dançar, pra aproveitar a noite, não tem essa de ir de salto pagar de bonita, dançar é diferente de sair pra ficar parada na balada perto do bar, amei entender isso e nunca mais sai de salto na vida.
E tem o tal do tempo! As pessoas aqui tem tempo! E isso eu também aprendi aqui e desde então tenho menos dinheiro, mas tenho tempo pra viver, uma loucura. Ter tempo é quase impossível em São Paulo contando o trânsito para chegar no trabalho e as horas de trabalho que todo mundo tem, além das horas extras que é “de bom tom” fazer pra sair bem tarde igual todo mundo e não parecer vagal. As pessoas aqui conseguem trabalhar e ter o tempo delas, pra curtir os parques, os bares, a cidade e a vida. E curtir a vida é algo que levo muito a sério e que aumenta bastante a nossa felicidade.
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Ah, jamais esqueceria da beleza! Berlin não só é uma cidade linda, tem muita gente linda, eu brinco com meus amigos que é o paraíso porque quando você vê um cara muito gato na balada e pensa em paquerar ele mas ele vai embora ou fica com outra, nem dá tempo de ficar chateada, você vira pro lado e já se apaixona por outro. No metrô é paixão a cada estação. Na rua paixão a cada quarteirão. Uma cidade cheia de jovens, lindos e lindas, me inspira muito <3
Antes de chegar aqui eu estava pensando “será que fiz certo em decidir passar meu aniversário em Berlin?”, mas cheguei e lembrei de tudo isso, me sinto em casa e feliz. Não sei se algum dia vou morar aqui realmente, sei que por enquanto não vai dar porque meu trabalho não é aqui. Acontece da nossa pessoa estar longe da gente e o destino nos separar por um tempo, mas é tão bom saber que sua pessoa existe e que vocês podem ficar juntos um dia, se depender de mim, eu e Berlin ficaremos juntas sempre.

 

 

Um anúncio, um aviso: 30, 30, 30, 30

Em uma semana é meu aniversário de 30 anos. Em outubro eu e a Cami Fremder vamos lançar um segundo livro juntas, sobre fazer 30 anos.

Outro dia uma leitora sugeriu na minha página do Facebook “escreve 30 coisas que temos que fazer antes dos 30″. Surgiu daí uma ideia com a Cami, vamos escrever 30 textos (texto, post, crônica, listas, o que der vontade), cada uma no seu site, antes de lançar um livro sobre os 30.

O post da Cami contando é melhor que o meu, ele tem até foto e ela chamou de “Maratona 30 textos”, então leiam lá e depois a gente se fala, amanhã provavelmente,

Vou escrever umas paradas aí, putz deixa eu correr pq 30 textos é muita coisa!

 

Happn – um app que encontra as pessoas que você cruzou na vida

No começo da era celular com internet e primeiros aplicativos, eu e minhas amigas conversávamos como seria demais se no futuro desse pra saber de alguma forma quem era aquele cara gato que vimos em um posto de gasolina. Era um ruivo maravilhoso motoqueiro e ficamos pensando “quem é, pra onde vai esse ruivão?”.

Ano passado, enquanto eu tava em Berlin, todo mundo começou a usar o Happn e isso me deixou louca, porque era exatamente o aplicativo que eu tanto tinha pensado que queria que um dia existisse. Quando me escreveram do Happn perguntando se eu topava divulgar a chegada dele no Brasil fiquei muito animada, toda vez que criam um novo app de paquera/conhecer pessoas eu baixo e testo, tô escrevendo sobre um app que sou usuária real, mó alegria.

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O Happn funciona assim: você baixa o aplicativo de graça no iPhone ou Android (nesse link aqui) e entra com seu perfil do Facebook (com a segurança de que ele não vai postar nada na sua timeline e é sempre bom entrar com o Facebook, porque dificulta muita a presença de fakes e pessoas sem foto). Aí você vai escrever algo na sua bio se quiser e vai escolher quem quer ver: homem, mulher, os dois, de que idade a que idade (usando ele esses dias em SP notei que a maioria das pessoas coloca também a profissão na bio, achei interessante).

Todas as vezes que você cruzar com alguém que também tem Happn em algum lugar, aparece no app o perfil da pessoa. Então quando você abrir ele, vai mostrar uma linha do tempo com as últimas pessoas que você cruzou na vida. No mundo ideal, todas as pessoas que nos apaixonamos no metrô, numa festa, num show, em qualquer lugar, mas que vimos rápido e nunca falamos, terão o Happn. Seria a solução pra comunidade “amores platônicos de metrô” do Orkut #riporkut <3.

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tipo assim a timeline

Se você curtir o coraçãozinho e a pessoa também, vocês saberão que se curtiram e então podem se falar por mensagem, algo já velho conhecido nosso de todos os apps de paquera – só dá pra mandar mensagem se os dois se curtirem. Existe uma outra função que é jogar um “charm” pra pessoa te notar, que é possível só para as mulheres de graça, pros homens é paga essa função. Nesses dias usando eu recebi uns charms de uns caras, você olha e se gostar curte, senão coloca o X e tchau, fim.

Agora falando na prática, o Happn chegou no Brasil faz uns dias e como já perceberam, comecei a usar antes desse post ir pro ar. Minha avaliação foi muito positiva (queria muito dizer que fiz uma avaliação positiva porque acho chique, mas falando sério, eu gostei muito) e percebi algumas coisas.

Uma curiosidade que alguns amigos meus tinham quando contei sobre ele era o medo de stalker, de alguém saber quem é você que cruzou o caminho naquela rua. O que eu percebi até agora é que ás vezes você não vê de fato a pessoa na rua, você vê no app pessoas que estavam no mesmo lugar que você tipo bar, festa, restaurante. É um filtro bom que os outros apps não tem, porque assim você já sabe que tem gostos em comum/frequentam os mesmos lugares que muitas daquelas pessoas #questãodeafinidadebial. Nos últimos dias cruzei algumas vezes com as mesmas pessoas (o Happn avisa toda vez que você cruza de novo com alguém), mas nem cheguei a ver elas no lugar, só vi depois no app. Também encontrei vários conhecidos, que estavam por perto ou na mesma festa ou quarteirão e eu não sabia.

O Happn só mostra o seu primeiro nome e as fotos que você escolhe, ele não mostra links pras suas redes sociais ou sua localização exata no momento, ele diz onde e que horas vocês se cruzaram, tem a mesma segurança que a maioria dos apps, nunca tive problema com nenhum deles. E como em todos os apps, a qualquer momento você pode bloquear e denunciar alguém mala.

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Nesse momento já tem mais de dois milhões de pessoas usando o Happn, basicamente nos Estados Unidos e Europa, ele chegou aqui e espero que dê muito certo, como eu disse lá em cima, acho que quase todo mundo já teve experiências de ver alguém e não ter a chance de ir puxar um papo, porque não rolou, porque viu muito rápido, por timidez ou porque a música tava muito boa e esperou acabar a coreografia para ir, mas quando foi a pessoa já tinha ido embora da balada. Eu como boa pessoa canceriana com lua em Peixes sempre espero coisas mágicas e coincidências acontecerem na vida, espero coisas mágicas e coincidências maravilhosas vindas do Happn.

Baixem aqui gentttttt!

Como criar seus filhos

- Jana, eu sou gay.

- Ah, eu já sabia! Mas não faz diferença pra mim.

Meu melhor amigo da escola me contou que era gay na oitava série. Eu sabia que ele era gay desde que nos conhecemos aos 11, mas quem era eu pra falar alguma coisa, eu sabia que tinha que esperar ele me contar, eu também sabia que eu o amava muito, ainda amo.

Depois da revelação não reveladora nossa amizade continuou igual, ficamos cada vez mais unidos, passamos a conversar sobre novos assuntos, descobrimos artistas, músicas, ídolos novos e fizemos muitos planos para o nosso futuro adulto. Mas as coisas em volta da gente mudaram, a notícia se espalhou pela escola e meu amigo nunca mais pode passar o recreio no pátio em paz.

No final dos anos 90, em uma cidade do interior não tão pequena assim, esse adolescente teve que se privar de ir conversar no pátio e dar risada, comprar um salgado na cantina, paquerar, fazer uma fofoca naqueles minutos tão felizes do recreio. Mas o recreio não era tão grave assim, porque meu amigo passou a apanhar na saída muitas vezes, quase todo dia, ele sofreu o tal do bullying por anos, ele teve que aguentar recados e xingamentos o tempo todo de valentões de diferentes séries.

“Ai” dele se enfrentasse aquela escola inteira de adolescentes furiosos no recreio como um estudante normal, o pátio inteiro gritava ao mesmo tempo, vaiando e urrando ofensas, até ele voltar pra dentro da sala e fingir que estava tudo bem em nunca sair dali.

Um dia fui conversar com a coordenadora dos alunos, eu não aguentava mais ver isso acontecer e queria saber se existia alguma medida que a escola podia tomar, se podia ter alguma aula que ensinasse os alunos sobre respeito, a entender que as pessoas são diferentes e amam pessoas diferentes de sexos diferentes, pedi classes especiais anti homofobia para a escola inteira. Ontem meu amigo me contou que ela chamou ele pra conversar e chamou alguns dos meninos mais agressivos também. Depois disso as agressões e o bullying pioraram. Nenhuma medida para ensinar os alunos foi tomada.

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Com esse amigo e minhas três amigas maluquetes como eu, descobri as baladas gays no final da adolescência. Eu ouvia Madonna a vida inteira, amava o mundo da moda, ler sobre a noite de São Paulo, sabia o nome de drag queens  famosas daqui, só faltava ir na balada gay. Mas em Araraquara só tinha uma bem pequena, chamada Café Paradiso, e começamos a tentar nos enturmar lá, pro espanto da “sociedade”.

Logo começaram as perguntas “Por que você vai na balada gay? Você é gay? Por que você vai então? Mas você é lésbica? Você quer ser gay? Mas por que vai na balada gay?”, começaram também as risadas de “hahahaha você é louca querida” e também sessões extra de show de comentários homofóbicos de tantas pessoas que eu conhecia, da minha família, da escola, da turma.

Não ligamos, começamos também a frequentar festas fechadas com go go boys, drags, travas, bichas, sapatões, bate cabelo, começamos a querer falar pajubá e a encontrar na internet gírias e fatos que nos faziam tão daquele mundo. Nós estávamos sendo adolescentes felizes e normais.

Cresci em um lugar onde gay e sapatão eram xingamento, na minha cidade e em parte da minha família, ninguém conseguia entender porque uma menina como eu, de classe média e com tantas oportunidades pela frente, andava com gays, falava com gays, falava sobre gays, defendia gays, aceitava gays, respeitava gays. Mas esse lugar não é Araraquara, esse lugar é o Brasil, e aparentemente tudo isso continua igual.

Algumas pessoas que fizeram meu amigo sofrer e que nos falaram absurdos durante anos cresceram e viraram adultos legais. São poucas, muito poucas.

Para tranquilizar meu coração sobre todas as outras e não sentir raiva ou ódio, um sentimento já muito explorado por elas em sua homofobia, tento acreditar que é um problema grave de falta de uma enzima diretamente ligada a inteligência, que tira delas a capacidade de entender uma coisa muito simples: cada pessoa tem o direito de gostar de quem ela quiser, fazer o que ela quiser, viver como ela quiser. Porque afinal a vida é dela, o coração é dela, o corpo é dela, o tempo é dela.

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Quando eu era criança fui no aniversário de uma amiguinha com a Aura, minha irmã. Nossa mãe ficou na festa com os adultos enquanto a gente brincava. No carro indo embora, ela dirigia na frente e eu e a Aura estávamos sentadinhas atrás, uma criança de 4 e uma de 5. Aura, sempre mais esperta para perceber tudo, me contou um segredo:

- Tinha dois homens se beijando na festa.

Eu, confusa, consultei a minha adulta:

- Mããããe, a Aura tá falando que tinha dois homens se beijando na festa!

Nossa mãe, uma mulher de trinta anos, a idade que eu vou fazer em dois meses, já mãe solteira de duas filhas, dirigiu muito calma enquanto respondeu:

- Tinha sim.

Isso era diferente de tudo que já tínhamos visto e entendido em meia década de vida.

- Mas mãe, porque eles estavam se beijando?

Minha adulta preferida foi ela mesma, uma adulta maravilhosa:

- Porque tem gente que gosta de homem e tem gente que gosta de mulher, cada pessoa gosta do que ela quiser, é normal.

Eu e a Aura concordamos.

- Ahhhhh tá.

E voltamos a nos preocupar com nossos brinquedos, nossas brigas e o pedido para ter um cachorro. Coisas que eram realmente da nossa conta na vida.

Assim estamos vinte e cinco anos depois, e nunca houve um dia que não entendemos que cada pessoa ama quem ela quiser amar, gosta de quem ela quiser gostar e isso não é questão de certo ou errado, porque isso simplesmente não é da nossa conta.

Aprenda a criar seus filhos.

7 milhões de dúvidas

Meu ano sabático acabou. Então vamos ser honestos, tenho que trabalhar. Sabe aquelas pessoas que dizem “adoraria não ter que trabalhar”? Não concordo com elas, trabalhar é legal, trabalhar dá dinheiro pra viajar mais, trabalhar faz você conhecer héteros gatinhos caso trabalhe em startups com casting bom, trabalhar paga sua catuaba e a catuaba que você oferece pra um estranho mas só descobre que fez isso no outro dia quando vê o extrato do cartão. Trabalhar, curto pacas.

Porém imagine, um ano sem trabalhar, só viajando e fazendo o que você tem vontade – que é beber e sair, obviamente – é a perfeição da vida. E quando acabam esses meses de perfeição, você entra em negação. Estamos em março e ainda estou em negação. Deveria estar cumprindo datas e prazos (joguei essa frase desse jeito pra me mostrar madura e solicitada), mas passo horas pesquisando sobre uma comunidade de surf no Equador e planejando morar nela. Alguém avisa?

Essa negação também me traz um pouco de tristeza, traz também uns momentos merda. Considero normal uma pessoa ficar meio obscura quando estava vivendo dias e meses memoráveis selvagens sem rotina sem obrigações e então tem que voltar pra uma vida sem grandes emoções, voltei pra SP, uma cidade que não me emociona muito porque acho meio ingrata, sem contar o custo de vida que é na casa dos bilhões e tenho que batalhar meus freelas e corres e projetos pra tacar dinheiro pelo ralo em tudo, quando gostaria de estar poupando pra minha vida no Equador com surfistas.

Algumas pessoas próximas começaram a me sugerir uma visita ao psiquiatra para me entupir de tarja preta e quem sabe me sentir melhor, pois qualquer tristeza e momento dark na vida é depressão para o grande público, uma vez que o normal é mostrar nosso melhor sempre nas redes sociais e garantir que tudo está maravilhoso 24h e falar mal das pessoas ao invés de conversar sobre as profundezas da alma confusa em jantares que a conta dá 170 pra cada (SP, bilhões, adeus Equador).

Mas respeito muito minha tristeza e meus momentos dark e não quero ser essa pessoa que está sempre bem com tudo o dia inteiro, porque essas pessoas que estão sempre felizes e gratas e otimistas são umas chatas, tirando a Malala.

*Outra coisa sobre tarja preta: passei uma década tomando todos os tarjas possíveis para ser feliz, plena, dormir, perder fome, não ficar ansiosa com nada. Faz um ano que fiquei limpa dessas drugs, não julgo quem toma e muita gente precisa tomar mesmo, tratamentos psiquiátricos mudam nossa vida quando a gente precisa, mas tarja preta é a minha droga e se eu pudesse tomaria um a cada seis horas e ficaria isolada em casa pra sempre tomando remédios e sem falar com ninguém, acho melhor não mexer com essas coisas de drogastarja.

Meu problema vai muito além da tristeza pós ano sabático, meu problema se chama dúvidas, sete milhões de dúvidas.

Como dizer isso de uma forma simples? Não faço ideia do que quero fazer dessa minha vida.

Morar com surfistas no Equador, muito sedutor o convite, mas o que eu faria enquanto isso? Surfaria também ou serviria caipirinhas para o pessoal que ficou na areia? Viajar para sempre – mesmo que eu tivesse dinheiro – perderia o sentido no segundo dia, porque eu precisaria de uma função maior na vida, do que só fazer check in e check out e beber cerveja com francesinhos de 23 anos e conversar sobre como o Carnaval é “algo que você nunca viu e não se arrependerá em conhecer”.

Fiquei alguns minutos tentando listar todas as coisas que eu não sei e estou em dúvida, tipo “não sei nem onde quero morar”, mas tenho tantas dúvidas que até sobre elas fiquei em dúvida.

Tenho dúvidas sobre esse texto, se vou publicar ou não (atualização: publiquei sem querer na madruga de insônia de tantas dúvidas que tinha na cabeça e depois me desesperei e me arrependi e mudei tudo). Tenho dúvidas sobre todos os textos que já escrevi e publiquei, se deveria apagar ou deixar. Na verdade 80% dos que eu escrevi nunca publiquei, o que me deixa mais triste, pois prova que não sei lidar com textos de forma profissional e organizada, então só escrevo quando me vem um momento. Isso me preocupa porque acho que meu sonho é ser colunista de uma revista legal um dia, mas tenho tantas dúvidas que acho que na verdade não é meu sonho e que nem as revistas são legais.

Tenho tantas dúvidas que, sem querer falar do mesmo assunto sempre porém falando, desfiz meu apartamento e fui viajar um ano com o propósito de descobrir o que eu queria da vida e responder minhas dúvidas. Resultado: fiquei com mais dúvidas ainda.

Enquanto tenho essas 7 milhões de dúvidas, não fico parada, estou trabalhando, criando, escrevendo, fazendo meus corres (nessa parte do texto pretendo mostrar mais um pouco de maturidade e agenda cheia, qualquer coisa acessem também meu linkedin) mesmo todos eles sendo legais e interessantes e me deixando feliz, continuo em dúvida. Não sei se são realmente eles ou se seria outra coisa, não sei se tudo o que eu fiz até hoje foi uma merda ou só metade uma merda ou se o que tô fazendo agora vai sair legal ou vai dar tudo errado e se eu vou conseguir pagar aluguel porque não sei se algo vai dar certo ou se vou ficar pra sempre sem ter noção alguma do que quero da vida ou quem quero ser na vida enquanto tudo dá errado e aí vai ser pior porque ficarei presa pra sempre em SP e tudo vai custar zilhões e nunca vou chegar no Equador.

A maior de todas as minhas dúvidas é: será que as pessoas também sentem isso? Porque parece que a vida de todo mundo é mais fácil e simples e acontece de maneira suave e organizada, onde tudo dá certo de alguma forma e ninguém reclama. E quando eu tento falar sobre isso, a maioria das pessoas lamenta como se nunca tivesse acontecido com elas ou me sugere um tarja preta. Meu maior sonho é falar pra alguém “cara, não faço a menor ideia do que quero fazer da minha vida, tenho tantas dúvidas, não sei se alguma coisa vai dar certo” e a pessoa responder “meu, eu também, vamos falar sobre isso durante sete horas até desmaiar, ficar com dor de cabeça e sem voz?”. Isto se chama “amigo legal pois também tem muitas dúvidas” mas também se chama terapia, análise, falar sobre suas dúvidas por horas, várias vezes por semana. Meu outro sonho seriam três horas de análise por semana até diminuir as sete milhões de dúvidas para umas quinze dúvidas. Só que análise é caro, muito caro, e tenho dúvidas sobre meu futuro se vai dar tudo certo ou errado e se terei dinheiro e se eu posso gastar com isso agora, então guardo o dinheiro pro futuro ou pro Equador, enquanto morro de dúvidas sobre o presente, o futuro e também sobre se devo mesmo ir pro Equador ou se uso esse dinheiro indo pra Índia.

Não sei se deu pra entender.

 

 

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